29 de dez de 2016

Para Axel, In Memoriam
Insultos são escravos

Insinceros escarros

Vão todos como vultos

Numa branda deslealdade.


Amigos tão perversos

Comem pouco desses versos

E aquecem os tumultos

Só no meio e na metade.


Às vezes nem basta pranto

Nem faz sequer recanto

Velha, tu que és sincera.


Sincero seria o canto

Cantando meu desencanto

Velha é a minha guerra.

17 de nov de 2016


Perdi tantas sandálias na infância
Quanto amores na puberdade.
Perdi brinquedos e bicicletas,
Amigos e automóveis.

(Mas continuo andando,
Não perdi as pernas,
Ainda bem.)

Perdi livros dados
E emprestados.
Livros que já li e nunca lidos,
E discos e discotecas inteiras.

Perdi a cabeça, o coração, o fígado.
Perdi sangue na seringa da vida.

Perdi um pai.
Perdi uma mãe.
Mas não perdi minha mãe,
Essa eu não perdi.

Perdi telefones:
Números e mais números perdidos.
Perdi agendas:
Tantos compromissos perdidos.

Tem gente que passa a vida só se achando
E sempre se acha de tudo.
Mas eu perdi.

Perdi empregos que nunca tive
E sonhos que se tornaram verdadeiros.
Perdi teorias infalíveis
E “receitas mágicas de amor”.

Perdi a carteira,
A identidade,
O cartão de crédito,
E a vontade de voltar pra casa no último ônibus da madrugada.

(Mas vou andando,
Ainda não perdi as pernas,
Tenho dito.)

Perdi beijos por perder o “time”.
Perdi risos por perder a piada.
Perdi canções por perder a melodia.
Perdi rimas e perdi poesias.

Perdi Tempo,
Essa ilusão completamente real.

Haverá quem sempre se ache.
Eu até já jurei me achar.

Mas eu me perdi.

1 de nov de 2016


O som dos veículos na avenida ali da frente,
Veiculados em minha pele e minha mente,
Dá-me sopapos de meio-dia ao cochilar;
E o pio dos pássaros, neste momento, vem me calar.

A cor do vinho que cai em mim, tão de repente,
E o seu aroma que me fez ler tanta gente,
É tão tal coisa dos sabores olvidar;
Que em minha língua se dissolvem papilar.

O cheiro terno da buceta em minha cara,
Um paletó executivo tão bem quisto,
Na tensão pós-menstrual do fim do mês.

Não tenho carro, só tenho vinho e minha vara
Que me amarram como sendo o Benedito
Pré-requisito para viver meu ex-burguês.

30 de set de 2016

Eu me divido por ele
E ele se divide em mim
Por mais que seja exato
Ninguém quer ouvir nosso papo
E nosso debate sem fim.

A gente então multiplica
Agentes que ajam nos mundos
Ele, com seu Espiritismo
Eu, com meu Socialismo
Em vários debates profundos.

21 de set de 2016


*
Amizades brejeiras são como bolhas de concreto:
é tão difícil estourá-las quanto construí-las.
*
Amigos de fato são como vísceras d’um feto:
Não há ultrassonografia que os distinga.
*
Discursar para um amigo é como falar ao teto:
O piso da fala está ao alcance da língua.

30 de ago de 2016



1.

O homem-poeta
É um eterno desequilíbrio
Entre
O dedo torto e a língua nos dentes.

2.

Toda vida-poesia carece
D’algum equilíbrio
Entre
Um copo necessário e uma arma eficiente.

3.

O destino é conforto do acaso
E o acaso destino inconfrontável.

Há desconforto na desmedida da morte;
Inevitável, inelutável...
A liberdade é a medida da solidão;
Inabalável, inquebrantável...

31 de jul de 2016


Dia desses,
Eu tive um vislumbre
De uma teoria fuderosa;
Que ia explicar o caralho a quatro!

Mas...
Comecei a roer as unhas,
Preocupado,

E me esqueci.

28 de jul de 2016



Quando criança mijei numa garrafa e a escondi.
Fui em busca, bom tempo depois, e me vi decantado.
Adolescente masturbatório, ejaculei num preservativo.
Pra minha surpresa meu sêmen ficou avermelhado.

Sangrando 
coagulado;

18 de jul de 2016


Quero soprar tua orelha,
Num sopro bobo e acanhado;
Covarde por minha besteira
E bobo por demais excitado.


Quero tragar teu juízo
E não quero ser juizado;
Nem sopro,
Nem trago,
Nem ligo...
Desligo, pra não ser desligado.



Quero beijar teu umbigo,
Num beijo bem amanteigado...
Teu corpo decola
E contigo,
Deslizo:
só pra ser:
deslizado.

17 de jun de 2016




Um poema é uma farsa
Tanto quanto se trama
Uma raiva de mentira
Reforça quem você ama
Minha gala abre portas, e pernas,
De quartos e terços gelados (suados):
Mas só meu deus samba...


E a vida é abrir o refrigerador 
Na madrugada
E ter vontade de voltar pra cama. 

1 de abr de 2016

Amigos amados das dores letais.
Artistas frustrados das ciências locais.
Aglomeram-se em esferal sistemas cabais.
Mantendo e sentindo coisinhas reais.
Agruras, louquices e romances astrais.

Encontros que contam incríveis histórias de quem não se convence aos convencionais.

12 de mar de 2016





Todos os copos foram lavados;
Talheres, lavei, pratos
E panelas...
Aí, ela pega e me diz rispidamente:
NÃO LAVO TUPPERWARE!

"Esse relacionamento já era."
(penso com meu umbigo enxaguado).
Também detesto lavar plásticos,
Assim sendo,
Coloquei as vasilhas numa sacola qualquer
De um supermercado
E fui dormir...

Acordei sendo coçado e interpelado por um garfo:
E esse corpo?
LAVADO?

26 de fev de 2016






Eu tenho uma carne

Tão de segunda classe

Que até o meu sangue

É tipo B, de BASE.


....;;;;;;

19 de fev de 2016

Todos estão cansados:
Trabalhadores;
Escravos;
Pobres;
Favelados.
Todos estão cansados:
Mulheres;
Negros;
Pardos;
Transviados.
Todos estão cansados...
Só não estão entediados
Aqueles que detêm a riqueza
Do restante de enfadados.

De resto, todos estão CANSADOS!

5 de fev de 2016


Há quem se orgulhe de noites de sono perdidas:
Por ter estudado bastante;
Ou por ter trabalhado demais.

Já eu me orgulho das horas de sono dormidas:
Por ter sonhado bastante;
Ou por ter preguiça demais.

13 de jan de 2016

Para La Boétie
I.

O mundo da vida
É tal qual o tempo no mundo:
Morre-se sem eles.

II.

Saúde é coisa
Que só existe nos livros;
E há doença nas mentes
Dos mais cativos.

III.

Espíritos livres e robustos:
- Não se sujeitam!
- Não se lamentam!
- Nem se deleitam!
- E jamais se enfeitam com a servidão...