18 de fev. de 2022


Antes havia macacos que eram quase homens.

Agora há homens que são completamente macacos.

15 de jan. de 2022

Já fui boa influência em tua vida,

Te fazendo bem menos ansiosa,

Deitei a indulgência toda prosa,

E tu sempre de guarda, não rendida.

De repente não achaste mais saída;

Disseste: Não cabemos nesse tempo!

Pelejei pra entender este momento,

Vi sangrando a eterna comoção,

Percebi nosso mundo ali no chão,

Quase morto, esperando passamento.

9 de dez. de 2021

O Não-Ser não é impossível;

Há Não-Ser, não há?

Talvez o Ser seja plausível;

E o Tao também, tá?



17 de jul. de 2021

 

Somos insetos hedonistas

Exoesqueletos vazios

Artrópodes navegantes

Cujas patas navios.


Somos cupins no amor

E abelhas na bebedeira

Formigas sonhando cigarras

De segunda a sexta-feira.


Somos moluscos psicóticos

Equinodermos espinhentos

Às vezes míticos

Às vezes trágicos

Cnidários automáticos

Crustáceos mitômanos

Do profundo Egeu dos clássicos

Ao mais raso do mar dos Bálticos.


Somos aracnídeos de ternura

E platelmintos revoltantes

Saborosos e suculentos

Repulsivos e violentos

Dialéticos e cativantes.

26 de mai. de 2021

 

A boca é uma pulsão de vida.

O ânus é uma pulsão de morte.

Somos um tubo digestivo que pensa,

Em duas frentes, à própria sorte.


Tal qual insignificante deus que caga,

Tudo que é divino em nós: defeca;

Tudo que é defectível em nós: baba;

E transborda desonestidade no "milagre" que nos cerca.


Toda boca tem uma sucção de vida.

Todo ânus tem uma explosão de morte.

O intestino é uma jiboia embevecida,

Que tão sábia ensinou Eva a comer seu dote.


Todos temos na goela mentira e paixão.

Todos temos no estômago alívio e pavor.

Alguns tem a bunda de rabo de pavão,

Outros tem a língua de filme de terror.


Em todo beiço que treme há uma neurose;

Em muitos dentes, uma covardia;

Em todo cu que lateja há um caráter de psicose,

Que para si mesmo prega todo dia.


O ânus é como uma criança que envelhece.

A boca é como um adulto de partida.

A boca também a morte enaltece,

Assim como o ânus, defeca à vida.