5 de set. de 2013

Às vezes é como se a alma fosse contas a pagar.
Às vezes é como se o corpo fosse casa a se arrumar.
Toda angustia de finitude tem um começo.
Avizinhar-se de toda morte tem seu preço.

Volições são desejos amarrados aos nossos pés.
Vocações são mentiras que enforcam os infiéis.
Em qualquer Ser é possível se universalizar.
Enquanto o Ente atua como ator sem interpretar.

Não existe trabalho.
Não existe produção.
Tudo é ato falho.
Ao fim tudo é adaptação.

Não somos o Eu.
Nem somos o Outro.
O que era vivo viveu.
E o que já se foi era pouco.

9 de ago. de 2013


Sabe aqueles queijos caros,
Que de tão bons e refinados e estragados,
Fedem?

Sabe aquelas leituras diferentes,
Que de tão à frente e rebuscadas e estragadas,
Tardam?

Sabe aqueles amigos especiais,
Que de tão estranhos e imponderados e estragados,
Atraem?

Sabe aquelas coisas bem doidas,
Que de tão loucas e coisadas e meio estragadas,
Impulsionam?

Pronto,
O amor é isso!
É estragar e ser estragado ao mesmo tempo...


28 de jul. de 2013

Para minha Claríssima.

Chego sempre de manhã do plantão
Acordo-a entre beijos e fazemos amor
Preparo, depois, o café-com-leite e pão
Tudo dulcificado e com muito sabor.

Agora, devagar, enquanto ela se banha,
Abro um vinho e caio no sofá.
O menino acorda cheio de manha
Então o visto, pra na escola brincar.

Sigo tal rotina alegremente
Tenho outra cria, mas já é gente
Difícil é ter a casa só pra mim.

Quando fecho um olho cansado
Sinto o sonho de haver encontrado
Um paraíso ou meu canto num jardim.

12 de jun. de 2013

(Livremente inspirado na canção homônima de Zeca Viana.)

Sendo verdade que há sol em mim
Há também de haver alguma dor
Por tanto, se tal sol, queima-me
Sirvo minha carne à cor.

Corro no sol entre fotocélulas
Para ver de perto toda fotossíntese
E quando debato algumas querelas
É tudo tese, tudo síntese, tudo antítese.

A minha Natureza é biopolítica
Mas meu Estado não está na matéria
Há combustão em minha estilística
Assim como o sol, sou substância etérea.


21 de mai. de 2013



De manhã cedo calço minhas botas
E caminho por sobre o sol de minha solidão.
A toda hora penso
No quão seria mais prazeroso caminhar
Se meus pés não doessem tanto.
O estado reflexivo ativado pela dor dos meus pés
Em meu córtex cerebral
Faz lembrar que mereço tudo isto.
Prometo a mim mesmo que amanhã
Acordarei tarde da noite
Calçarei minhas botas
E caminharei por sobre a lua de minha solitude.
Queria também poder nadar
Em horários alternativos
Com um tal peixinho
Que tanto me completa
E que agora
Ficou um pouco distante de minha solidão e de minha solitude;
Mas não tenho nadadeiras:
Só essas velhas e confortáveis botinhas ortopédicas
Para diurnas ou noturnas caminhadas reflexivas.