19 de out. de 2012


Para Diógenes de Sínope.

Agora sou vivo
Vivo em mim mesmo
E morto na alteridade
Morto-vivo como uma cama de ex
De outras tantas vivências
De tantos outros alteres

Alterado estou muitos
E muitos agora são únicos
Unos repletos de mim
Nas diversas unidades
Em um fragmento
De fragmentos sem peso

Leve e auto-suficiente, agora, posso ser o mesmo.

19 de set. de 2012




Beijos, saliva, suor e cor
Cores multicores, coloridíssimas
Hálito quente e sabor
Mares de vidas quentíssimas

Fertilidade e fé fecundante
O choque do orgasmo é um nó
Milhões de seres andantes
À procura de um ser só...

22 de ago. de 2012



Adeus a deus e não diga sim
O meu lado de cá está doendo
As nuvens carregadas de senhores
E a terra cheia de dividendos

Na cidade tudo se encontra
No centro dela ninguém se reconhece
Mas à beira-mar às pessoas são felizes

(Um desfile de cachorros não é loucura 
/ há loucura em ver humanos desfilar)
Nos ônibus lotados brotam poesias quentes
Os outros por lá são não-contentes
As nuvens soltam rajadas lógicas
E a terra da ciência treme sem razão

Inchadas as pernas da moça ¾ quer deitar
Entre abertas ficam a saia e as cortinas
Provocando sempre dor de mente
(Dor-de-dente) (Dor demente)
Sem as calças os homens não se doam
Com as calças os homens não são gente

Nossos primos distantes são não símios
Nossos símios distantes são não macacos
Ancestrais atrás do cais alcoolizados
Procurando alguma fuga n’algum navio
Sempre bem acompanhados e discretos
Que à beira-mar nem todos são concretos

18 de jul. de 2012

Para Piaf.

Amizades e relações precisam de telhas,
Telhados de barro e telhados de vidros.
Precisam de eiras, de beiras,
Não de tribeiras.
Nada que sobre ou nos esnobe.

Relações e amizades carecem de persianas.
Cortinas floridas ou de renda,
e dessas treliças
Pelas quais vemos sem ser vistos.
Nada de janelas travadas impossíveis de pular.

Por assim,
Sorvo e sopro nossa missão:
Atirando pedras em nossos telhados;
Dormindo embaixo de nossos beirais;
E atravessando as janelas do peito
Para se enrolar nas gelosias do coração.

21 de jun. de 2012


Nesta vida de monstro desregrado
Quebrei perna, quebrei braço
Quebrei a cara, quebrei os dentes.

E mesmo depois de remendado
Sempre me sobrou meu coração latente.

Pungente coração que com cuidado
Se aproxima do espaço
Do teu ventre.