29 de mai. de 2015


Sendo eu feito nata
Meu soluço me engole
Minha dor é coalhada
Que o sorriso comove


O sabor não é farsa
Só reflete o que pode
Meu andor nessa graça
Minha vida dissolve


Não sinto gosto de nada
Nem do creme mais mole
Mas sendo a vida inata
Haverá quem me console

.

29 de mar. de 2015


Em minha rua mora um doente mental.
A casa é pequena,
mas o jardim é grande.

Moram vários doentes em minha rua...
A rua não é longa,
mas o jardim é o mundo.

14 de fev. de 2015

Pra Festa da Carne.

Muitas vezes:
Nos arrependemos,
De pequena coisa,
Diminuta lousa,
Tão vazia e solta,
Preenchendo à gota,
E no fechar da conta,
Essa coisa toda,
Não nos leva a nada.

D’outras vezes:
Nós nos orgulhamos,
De calar a boca,
De beijar na coxa,
Desabotoar a roupa,
Descobrir na sombra,
Que no fim da onda,
Dessa coisa louca,
Voltamos ao nada.

15 de jan. de 2015

Para o filme História Natural, de Júlio Cavani.

Reduzo as pontes desses trânsitos
Engulo a nocidade nessas pressas
Mastigo com caninos de felinos
Pedaços de teus bofes sem as pernas

Não uso bico nem a pra dizer
Que posso ter então alguma ideia
Mas fujo dessas grades sem saber
Qual bala no revolver inda me resta

No fim, de tão perto e espancado
Diria que sentei, pasmei suado
Desmaiei capotado no sofá

Sobrou-me a comeia desse banho
Proposta sobretudo de rebanho
Dirijo pr'outro filme à sonhar.


12 de jan. de 2015

Para São Zé do Egito

Pro Sertão eu retornei
Pra viver uma cantoria
Tanta coisa ali deixei
Tantas mais reencontrei
Tive paz e alegria

Pro Sertão do Pajeú
Volto sempre que puder
Não me alegra ir pro sul
Quero ver o céu azul
Olhos loiros de mulher

E se um dia Deus falar
(tão claro que eu possa ouvir)
Que o Sertão é meu lugar
Nunca mais vou xerocar
Dessa cópia minha matriz