10 de abr. de 2014



A possibilidade de ser repleto
É como uma jarra de barro que nunca enche.
É saco de quem caminha descalço na terra;
E de quem não quer que a terra vire lama.
Perder a calma como um bicho,
Tendo tal bicho nas roupas.
É deitar a cabeça sob um signo,
Sabendo das mãos insignificadas.
Correr como caneta
De juiz ou advogado,
É chaleirar o julgo
Da própria morte em vão...

Não há choro, nem permissão.
Não há de haver nada; sem unhas, sem solução.

Esvaziado de mim e do todo,
Com minha cabeça dentro do forno
De microondas que me fritam as poucas idéias.
Crianças brincando de mortas,
E nós, de formigas tortas,
No saneamento escroto da rua;
A chuva escorre no ralo.
A pomba só dorme no talo

Folhoso e quente sem porta.
Rapazes em pés-de-manga,
Chupando a vida alheia:
Ajuízam mergulhos sem fim.

Não há coro, segunda voz, ou tamborim:
Mesmo que houvesse mais pele;
Não há ossos, nem dentes, nem marfim!



10 de mar. de 2014

Para Vinícius de Moraes

Chiar como corda no pescoço
Cair na forca como condenado
Tentar sumir sem fazer esforço
Qual doce de leite condensado

Cabelos pintados pelo tempo
Uma cama bem feita e nada mais
Passeando levado pelo vento
Lembro canções de ancestrais

Preciso que penses o que quero
Desisto e não me desespero
Insisto na forma de Ogum

Não entendo qualquer mitologia
O sistema é minha mialgia
Dói, mas continuo bebum.

21 de jan. de 2014


Escondendo n’alma o que se refuta
Entrei teus dentes azuis-amarelos
Se fosse pitada morder como fruta
Tua vulva teria meus entes sinceros

Agora que posso fazer tal permuta
Espero que chores um sorriso afeto
Que debulharei tão pouco na luta
Qual emoção que me joga sem-teto

Vá e viva os outros dias
Quero jamais ver tais agonias
Assim como tento vomitado

Dispenso tu’alma pelo mundo
De ter vivido amor profundo
E logo menos regurgitado 

2 de jan. de 2014



Pensando como portas e como grades
Percebo que todo o mundo e toda gente
Por mais que ame, nem sempre sente
Que os cadeados são impropriedades

Travam passagens e fecham caminhos
E entram nos sonhos das fechaduras
São como os textos dos pergaminhos
Que queriam poder tecer esculturas

A felicidade é o mal da política
Tentando livrar da angustia o animal
Cotidianamente assim exercita
A puta e a moral dos que passam mal

25 de nov. de 2013



Sou feito de carne e insegurança
Tipos de células em camadas
Pulsão jocosa sem temperança
Agüentando, da vida, pancadas


Sou feito de risos e agonia
Músculos em ressonância
Carentes esperam a fatia
De minha augusta ânsia


Sou feito de som e mormaço
Ouvidos de óculos escuros
Não tenho na boca cabaço
Mas tenho meus dedos seguros