22 de ago. de 2012



Adeus a deus e não diga sim
O meu lado de cá está doendo
As nuvens carregadas de senhores
E a terra cheia de dividendos

Na cidade tudo se encontra
No centro dela ninguém se reconhece
Mas à beira-mar às pessoas são felizes

(Um desfile de cachorros não é loucura 
/ há loucura em ver humanos desfilar)
Nos ônibus lotados brotam poesias quentes
Os outros por lá são não-contentes
As nuvens soltam rajadas lógicas
E a terra da ciência treme sem razão

Inchadas as pernas da moça ¾ quer deitar
Entre abertas ficam a saia e as cortinas
Provocando sempre dor de mente
(Dor-de-dente) (Dor demente)
Sem as calças os homens não se doam
Com as calças os homens não são gente

Nossos primos distantes são não símios
Nossos símios distantes são não macacos
Ancestrais atrás do cais alcoolizados
Procurando alguma fuga n’algum navio
Sempre bem acompanhados e discretos
Que à beira-mar nem todos são concretos

18 de jul. de 2012

Para Piaf.

Amizades e relações precisam de telhas,
Telhados de barro e telhados de vidros.
Precisam de eiras, de beiras,
Não de tribeiras.
Nada que sobre ou nos esnobe.

Relações e amizades carecem de persianas.
Cortinas floridas ou de renda,
e dessas treliças
Pelas quais vemos sem ser vistos.
Nada de janelas travadas impossíveis de pular.

Por assim,
Sorvo e sopro nossa missão:
Atirando pedras em nossos telhados;
Dormindo embaixo de nossos beirais;
E atravessando as janelas do peito
Para se enrolar nas gelosias do coração.

21 de jun. de 2012


Nesta vida de monstro desregrado
Quebrei perna, quebrei braço
Quebrei a cara, quebrei os dentes.

E mesmo depois de remendado
Sempre me sobrou meu coração latente.

Pungente coração que com cuidado
Se aproxima do espaço
Do teu ventre.

25 de abr. de 2012


 Para Guerra Junqueiro

Na última prece que fiz
Tentando acudir minha alma
Aliviar meu tormento matriz
Deixar minha passagem mais calma


Ouvi a voz de um profeta
Falando junto a mim mesmo
Profetizou minha vida poeta
Cantou com meu nome a esmo


Disse: nem preste muita atenção
Aqui, o que canto, já sabes
Ninguém ouvirá tua oração
Destino, tu mesmo o fazes


(e continuou a voz do tal santo...)


Ah, Henrique Viana Brandão,
Começo esta tua canção
Aquecendo o frio do teu peito.
De que te serve, das fêmeas, o leito?
Se do teu dique, Henrique vão,
Já não transborda nem vinho, nem pão?
Relembra que tu és poeta!
Dinheiro não é tua meta!
Moleque Viana Brandão...


Replique, Henrique Viana,
A quem tu pensas que engana?
Não vês que não tendes trabalho
Porque tu em tu mesmo é atrapalho?
Tua cabeça é um turbilhão!
Tua arte é como um facão
Que corta a vazão da certeza!
Teu antenome é nobreza,
Cacique Viana Brandão...


Brandão Viana Henrique,
Por mais que você multiplique
A chama do amor pelo mundo,
Às vezes haverá o absurdo
De seres tratado vilão.
Suplique, não enrique o ladrão,
Pois em tua jornada cigana
Amaste alguém que não ama;
Coração Viana Brandão...


(e continuava cantando o tal santo-profeta...)


Depois disso adormeci
Com imagens em meus sonhos
Da vidinha que vivi
E das vidas que disponho.

11 de abr. de 2012

Todos os pênis já nasceram mortos;
e os poemas também.
Todas as vulvas já foram feitas;
e as poesias: me dêem.

[Não podemos ser um só,
nem todos ao mesmo tempo.
Mas podemos ser alguns de nós, por momentos.]

...A mulher sem dramas é a filosofia sem dentes!
...O homem sem damas é um sujeito decente?

Chatear uma figura repugnada de ti,
pode (e nem sempre deve)
preencher-te com felizes afogamentos sentimentais.

{Amar alguém é querer,
sincera e silenciosamente,
que esse outro-alguém morra...}

Sei só da vida parindo meu caminhar em ruas contínuas como tripas e nas crianças bêbadas como moças.