4 de set. de 2026

 

Tive sonhos violentos:

Era briga de cachorro;

Acordei nos aposentos:

meio-vivo-meio-morro.


Chorei dormindo e confesso

que mesmo morto ia chorar;

E acordei fazendo versos

borbulhando em meu bilhar...


Sonhei e choro como os cães,

aceito as lágrimas das mães;

azeito a onírica madrugada

e não consigo escrever (mais) nada!

8 de mai. de 2026

 

Tudo que inicia pertence ao tempo.
É só no tempo que se cria a realidade.
O tempo é a forma de existência da matéria
e o imaterial é, também, fruto da temporalidade.

(Antes do tempo não havia existir,
pois tudo que existe busca um fim.)

O tempo marca o fim de tudo.
À finitude pertence a perfeição.
O universo é perfeito porque finito
e nunca existe vazio no tempo em vão.

(Tudo que tem uma origem passa a conter tempo,
pois tudo que passa a existir está contido no tempo.)

O tempo não é o melhor nem o pior remédio.
O tempo está na ordem do caos,
na alegria e no tédio.

Não há nada que não esteja inserido no tempo.
Do passado ao futuro: O todo está no tempo;
o tempo está em tudo.

11 de abr. de 2026

 

A minha garota tem uma beleza esquisita:

às vezes faca,

às vezes pipa.


A minha menina tem uma voz absurda:

às vezes de pata;

às vezes de puta;


A minha mulher tem a mente engraçada:

às vezes

vezes

vezes

Nada...


A minha moça tem um olhar remoto:

às vezes tele

e noutras toco.


A minha pequena tem humor estranho:

às vezes cospe

e eu sempre banho.


A minha consorte tem muita sorte:

pois sempre goza:

ficante

forte.

18 de jan. de 2026

 

Algo deu errado dentro do meu exoesqueleto anímico.

Como um apêndice mal escrito,

sem propósito...

Ou uma apendicite não superada, supurada.


Sou, na estrada da vida, uma raposa bela atropelada.


Estou ficando velho e assertivo;

velho e anciloso;

velho e mais cativo

e chatoso, cheiroso, chicoso, choroso, chuvoso.


Ontem, coisa inédita!, sonhei que fiz um exorcismo:

Proferi palavras doces e fortes

contra o demônio

que a dominava;

(Enquanto seu pai fugia num táxi sem passageiros.)


Ah, pra quê esses sonhos tão derradeiros?


Se na juventude era mais rápido escalar escadas,

agora os elevadores são bem mais ligeiros.


Só que algo se lascou nesse meu recipiente paradeiro.

Não sei a roça que como,

mas como formiga que sou

desci pelos túneis do meu formigueiro...



9 de out. de 2025

 

Meu eu do futuro já me disse:

O amor multiplica o sofrimento;

Não existe revolução no amor,

Ele é conservador e radiador ao mesmo tempo.


Meu eu do futuro já me disse:

Paixão não é lugar pra entendimento;

Tudo nela desvaloriza a vida,

Ela é sempre egoísta e oportunista todo o tempo.


Meu eu do futuro já me disse:

Desejo é um cruel deslumbramento;

A infelicidade amorosa nasce nele

E nele morre, compaixão dolorosa, no fim do tempo.

27 de abr. de 2025

 

Nunca me arrependo

de ceder aos meus instintos

e necessidades: menos uma: A FOME!


Comer me cansa e profundamente entedia,

pelo simples fato de ter que fazê-lo todo dia.

Detesto ter que me repetir com tanta regularidade;

comer (e descomer) são, para mim, esse eterno desastre.


Ah, se pudéssemos ficar sem a tal nutrição durante meses...

Mas, somente o estômago para, facilmente, não sermos deuses!

7 de fev. de 2025

 
Em algum momento a vida
De todo mundo desmorona
Em algum momento da vida
Todos vamos desmoronar.


Inventar é viver
A vida é invenção
Recordar é gravar uma relembração.


Desinventar é morrer
Mortes são amnésias
Um mar sorrateiro derrubando falésias.


Ser esquecido é ligeiro
Ser deslembrado é unção
Da história que se perde
Da memória que se esquece
Pois se esquecer é uma benção:


d’O Tempo
d’A Temporalidade
d’Aquela ilusão relativa absolutamente real
Que viaja entre as dimensões da física natural
E em todas as direções se dilata e se espreme
Não há nada que não rejuvenesça
Não há coisa que nunca envelheça
Até dEUS diante do tempo treme.

1 de set. de 2024

 

Não lembro a primeira vez que me esforcei

Pra terminar alguma coisa

Em minha vida.


Talvez no parto, talvez não, não lembro, talvez tenha sido uma cesariana, é bem plausível…


(Dia desses minha própria Madre me desencorajou a enfrentar um trabalho doloroso;

minha namorada…também.)


Nunca lembro a primeira vez da primeira vez de nada em minha vida.


Se fiz coisas foi só pela pura chatice de fazê-las:


Vestibular = boring;

Concursos = boring;

Campeonatos = boring;


Empregos, já os tive, nunca gostei.


Aprendi que todo esforço constrange e destrói

E que sempre que tive que me esforçar

Pra executar alguma coisa

Acabei desistindo.


Não gosto de romances forçados:

Prefiro os suados.


Não gosto de problemas difíceis:

Prefiro os felizes.


Não gosto de amigos penosos:

Prefiro os saudosos.


Não gosto de dilemas éticos:

Prefiro os estéticos.


Mas nem quero com isso...comemorar


(ou pregar!)


Uma vida fácil:


Só

Sem

Muito

Esforço.


27 de jul. de 2024

 

A vida é um sol no mar;

Com sais biológicos a nos temperar.


É refinamento e afinação;

No temperamento desse diapasão.


A vida é salto pra dentro do tempo;

Um instante momentum de apoquentamento.


A vida termina e vai terminar e até o fim é preciso estudar...


Pesquisar a morte

É uma dívida antiga;

Mas o Mundo da Vida

É a clássica pesquisa.

18 de fev. de 2024

 

É, talvez, mais sábio evitar a agonia

Do que buscar o sucesso:

Ou o inverso?

...

Guarde e governe bem suas paixões:

Elas despertam invejas

E atrações.

...

Cuida sempre de tua ação no mundo;

É provável que um dia precises dela:

Numa querela.

15 de fev. de 2024

 

A maior parte da população mundial é medíocre

Por isso as sociedades amam a média e a metade

O médio é sempre meio egoísta e meio imbecil

E a miséria floresce e cresce dessa imbecilidade

25 de jan. de 2024

 

O tempo já foi grandeza absoluta

Sabedoria ingrata

O tempo virou uma coisa relativa

Mas não abstrata


Sua dilatação é um capricho da gravidade

E também da idade

Sua contração é consequência da velocidade

Na luminosidade


Ele não precisa de direção e sentido

Nem de morada ou abrigo

Mas ele carece que alguém o observe

E tal castigo lhe serve

14 de jan. de 2024

 

Um bom poeta há de ser arguto

Bastante violento – com as ideias

Umpoucossedutor – com as palavras

às vezes honesto e nunca resoluto.


Um bem poeta

é sempre pouco ou muito chato!


Um mau poeta?

Ah, esse é inato……………..

20 de dez. de 2023


Vivemos o que podemos nem ser...

Morremos e pretendemos nem ver...


Gastamos a jovial energia

em nosso trabalho

escravo sem dote.

Trocamos nossa real valia

por outro valor

que nos beira à morte.


Somos, ao fim da verdade,

um erótico combo de

sonhos e desilusão:

Ascende em nós a Vontade; descende de nós a Razão.


21 de set. de 2023

 

Espero estar menos tolo e mais limpo

Antes da estupidez chegar.

Sei que infelizmente

Ou felizmente

Ela virá.

Demente como a embriaguez

E as lágrimas forçadas

Do fim de um casamento sem traição:

A vida é assim: nem se trai, nem se é traído;

A vida é tal qual relacionamento

Que sempre termina sem herança,

Sem separação de bens

E sem juízo.

Sei que é preciso aceitar o estranhamento

Da velhice e a vizinhança da morte,

Como se fôssemos estrangeiros

Numa rodoviária

Com a bagagem

Extraviada.

É impossível parar o Tempo sem fuder a Eternidade.

Como não há o que ser feito me farei um tanto bêbado,

Um pouco menos tolo e quase sozinho,

Sem meu cão...

E quando a impávida estupidificada chegar

Já não fará diferença se tomei banho ou não.


6 de set. de 2023


Existe um certo cheiro de felicidade

Como também o das coisas felizes

E felizmente tu guardas tua maldade

Antes que eu cometa os meus deslizes.


Mas deslizo em teu cheiro de boneca

Feita toda pela indústria do petróleo

E trago perto do teu rosto a munheca

Que deslizas em meu corpo magnólio.


Existe sim, um certo cheiro, já te disse

Infeliz fico quando vejo alguém triste

Pois sempre sinto essas tais comoções.


E assim, riste, eu estendo minha rima

Bem melhor que preencher só a narina

Preencherei de alegria teus pulmões.

25 de jul. de 2023

 

Não revelar o passado

Não relembrar o futuro

Se for desvelar o presente

Não o faça em cima do muro.


Não remarcar o encontro

Não recuperar o perdido

O tempo é um deus sem retorno

Nem moral com benesse ou castigo.


Viver sem eternos engodos

Morrer sendo bicho saudável

Nunca guerrear pelos tolos

Sempre reler alguns sábios.

23 de jun. de 2023


A vida é gosto e desgosto
A vida é plugue e tomada
Na vida o eterno retorno
Trafega do nada ao nada.

Em vida o todo me enxerga
E navega pra me atravessar
Atiro na vida uma seta
E a seita me aceita no ar.

A vida é como uma vela
Ou leme partido no mar
Há quem nunca naufrague
E há quem vá se afogar.

20 de jun. de 2023

 

O mundo do trabalho

cria uma ilusão de funcionalidade

e uma jaula de burocrática sub-existência.


O mundo da arte

(assim como o sexo e o entorpecimento)

cria o desejo sincero e perene 

de prazer sensorial imediato.


O mundo da vida

cria preenchimento constante

no vazio da busca de significados irrealizáveis

e sem – nenhuma – validação científica.

2 de mai. de 2023

 

A vida utópica é difícil de alcançar

como a trissecção de um ângulo qualquer.


A vida distópica é bizarra e temerária

como a quadratura de um círculo qualquer.


A vida atópica é pesadamente deslocada

como a duplicação de um cubo qualquer.


Mas a vida eutópica e eutrófica

tem inteira completude nela mesma

e nela mesma reside sua própria consistência.